sexta-feira, abril 27, 2007

De onde vêm estas linhas?
O que as gera?
Quem sou eu?

Não, não são traços desbotados,
salpicos motorizados de dentro do depósito,
gasolina dos dias de percursos...
Não. A sede é diferente.
Para mim, arte não é sentir; é sentir-me -
basta a verdade como qualidade,
quer-se o propósito sendo um comigo,
a pele remendada de nos construirmos
por sobre a ferida a arder, latejantes.

O sonho sou eu, é a promessa que fiz
em anos de arder, carne viva, infeliz.
Arte é querer ser côr, e recuperá-la
apesar do torpôr de não saber está-la,
de não ser ninguém, de nunca o ter sido
de em escassez além no mundo sofrido
que é todos a rôdos, presenças sem fim,
um grande salão de alegrias sem mim,
informal infantário de diplomacias
onde não há espaço p'ra simples grafias
de querer fazer laços com a liberdade -
Ser eu, sim, sim! Eu, dentro da cidade
onde não há espaço, pois tudo é concreto,
para um meu regaço, sem ter que ter tecto;
Eu, fonte rara em termos de jorrar,
tecido frágil e pronto a rasgar
deixando escorrer as gotas de sangue,
sangue silente pela pele doente...
de pouco respeito que o acalente
e, porque não, de amôr que me trate.
(Amôr, amôr... esse velho forreta
que da ilusão vai sendo alfaiate
disfarçando mal que não está escarlate,
rosa que murcha no tempo do jarro.)

Conservo em cristal essa esperança,
e espreito sempre que não embacia.
Tudo o que busco e revolvo nas horas
é mero e singelo porém.
É o sorriso íntimo de discursar ser,
a respiração de agradecer
com a essência vossa pluralidade.
É a vida que é esponja embebida em vós,
amizade que é o me descobrirem,
o me encontrarem, o me aceitarem,
ambição-cicatrizes.
Querer dispersar-me, e apenas.
Ser, para lá da ostensividade
de mecanizar o acto na abordagem,
de ferir a pele, raspando-a, do outro
qual espátula, incisiva sem dó.
Ser, sem primária lei e indiferença
que não o superior entendimento, comunhão,
o pilar de uma Acrópole humanista, bela,
onde as pessoas não têm nome, e sim identidade,
onde as pessoas não têm idade, e sim o presente,
onde as pessoas não têm sexo, e sim corpos,
onde as pessoas não têm moda, e sim ideal,
onde as pessoas não são consideradas inferiores,
pois há a noção íntima de julgar à superfície ser superficial,
onde as pessoas não são tratadas inferiormente,
pois há a noção íntima do sofrimento infligido infligir sofrimento,
lá, onde as pessoas são felizes, parte activa da felicidade umas das outras
na sua forma de estar, na sua forma de apreciar os momentos,
nas suas formas, sublimes e expressas.

Gente cristalizada, transparente
pintando as flôres que é
na tela impalpável do cosmos -
Quero ser um de vós,
lindas lendas,
dócil utopia.
E bem sei que és real,
minha poesia...
Fascínio que vislumbro
entre as pálpebras pesadas -
Lua que durmo estas noites -
acordarei por ti, à aurora.
Um dia.